quinta-feira, 14 de maio de 2009

Urbaniexitocidade.

Na terceira edição da Estante Pública conseguimos uma manifestação radical de pertencimento. Com livros que tinham uma temática comum que falavam de questões voltadas a terra - como ocupação e desocupação, imigração, construção entre outros - além de títulos de Geografia e História, a comunidade não suportou a convivência vazia. Em menos de 30 horas a instalação fora acabada. Especulações não nos faltam na tentativa de achar um culpado: um carroceiro que viu ali naqueles quilos de papel o seu almoço garantido, um estudante que se encantou com tantos títulos e viu a chance de enfeitar a sua estante privada de livros, o ser não pensante que depositou sua mais sincera raiva contra o sistema simplesmete levando a instalação para algum lugar distante dali ou o morador da vila que precisava mostrar a sua mais nova posse aos seus amigos e familiares. Não importa o autor. Não me agrada pensar em quem foi a pessoa ou o grupo de pessoas que fez isso.
O que me desperta é um olhar sobre a POSSE. Detenção de direitos inventados a partir de uma lógica individual que respeita e é moldada segundo a experiência de vida particular do indivíduo. Ora vejam vocês. Todos nós temos a vontade de poder possuir algo. Vontade louvável desde que seja coerente com o respeito. E é justamente neste ponto que preciso compartilhar um pensamento desperto.
O ato de apropriação da estante 3 em um golpe só nos escancara uma inquietação que estamos observando ao longo do projeto. É inevitável o desejo ou a necessidade de ter algo. Mais uma vez volto na questão da POSSE. Observamos que a atitude de se apropriar do que é público e transpor para a intimidade privada é um comportamento comum nas pessoas que entraram em contato com a instalação Estante Pública (1,2 e 3). Isto, de certa forma, se justifica pela loucura em que vivemos dentro da cidade na qual buscamos cada vez mais um estilo de vida isolado - em grupos que nos identificamos - reforçando conceitos de segurança e principalmente pertencimento.
Portanto, esta explosão comportamental que presenciamos com relação a estante 3 gera uma reflexão que reforça este pensar. As pessoas querem e precisam se apropriar de algo para justificar sua busca incansável pelo pertencer. As pessoas precisam achar respostas que sustentem sua condição atual de comportamento através de atos que passam a ser questionáveis ao cruzarem a fronteira da convivência coletiva.
O projeto da estante, neste sentido, pode ser ousado ao propor uma troca com pessoas que sequer se conhecem, não se identificam e não se agrupam por afinidades de pensamento indo contra a toda uma lógica pós-moderna de necessidades de agrupamento. Entretanto, é nesta ironia que se busca um caminho.
(IN)felizmente o projeto se reforça e amplia sua discussão. Fica como mensagem oculta aqueles que carecem de uma revisão de valores: que o amor, como prática mais virtuosa da nossa condição de humanos, esteja sempre presente nos seus mais bem vindos sonhos.


Aron K.L

domingo, 10 de maio de 2009

Estante Pública #3


A terceira edição do projeto Estante Pública escolheu o Bairro Cristal como espaço de ocupação. Instalada no sábado, dia 09 de maio, às 16h, teve a presença de diversas pessoas que esperavam seu ônibus em uma tarde ensolarada. A maioria delas fingia não ver o que estava acontecendo, aguardavam seu trasporte reservadas em seus mundos, nao tinham a permissão de fazer contato com algo estranho, afinal tratava-se apenas de um grupo de pessoas que colocava uma estante na rua!
O procedimento aconteceu sem nenhuma interferência, como se fosse a coisa mais natural do mundo. Foi Fernando, sujeito do bairro, que rompeu o silêncio perguntando do que se tratava. Escutou atento e ficou muito satisfeito com a proposta, sentiu que isso reanimava o espirito de cooperação da comunidade, mas admitiu duvidar que os livros durariam até segunda-feira.
Bem, Fernando teve razão, 24horas depois de instalada, a Estante Pública estava desfigurada, sem mais nenhum exemplar e nem mesmo sua placa de identificção, que agora dava lugar ao vão tradicional.


O povo do Cristal realmente não acolheu a Estante Pública, tornando-a privada. Não possibilitou que as trocas acontececem, particularizaram a experiência e aprisionaram os estimulos. Dessa vez ainda mais seca e rapidamente que na sua última morada no Bairro Moinhos de Vento.
É sabido que a população dessa região é mais carente, que passam por muitas dificuldades e privações, mas será que isso é justificativa para acharmos que eles tem menos capcidade de cuidado. O acontecimento de esvaziamento da estante acaba alimentando um estigma pesado dessa populção.
Mas o importante aqui é podermos ultrapassar esses julgamentos e perceber o fenômeno que se manifesta. Sim, ouve uma falta de cuidado e pouco espírito coletivo, mas isso se acontece por uma série de outros fatores. É no intuito de falar sobre esse outros fatores que a Estante provoca o espaço público, desafia seus costumes e ordens.
É verdade que os livros sumiram e que parte da estante foi desmontada e levada embora, mas quantas outras pessoas não passaram por ela enquanto ainda estava inteira e sentiram sua diferença? Perceberam que podem cuidar e ser cuidados sem obstáculos?
Não podemos abrir mão de experimentar, assim se constroem novas posibilidades, outros formatos.
Qual a sua opinião com relação a maneira como as pessoas se relacionam com a Estante? Por que em alguns bairros ela é bem cuidada e em outros não tanto?
O que você sente com relação ao que é público e o que é privado?
Essas são questões que queremos discutir, participe!