sexta-feira, 12 de dezembro de 2008

A (re)Estante do Vazio.

A estante vai ficando vazia...

Vazia de vida,
Vazia de saudade,
Vazia de beleza,
Vazia de tristeza,
Vazia da troca,
Vazia de emoção,
Vazia de entendimento...

Vamos observando no passar diário pelo local que a estante pública se desintegra de poesia. Movimento curioso que faz com que os pedestres levem a poesia das ruas e guardem nos seus pertences privados, enjaulados e solitários. As pessoas deixam o seu vazio como troca.

A sede de poesia é tamanha que os livros vão sumindo, desaparecendo. E o suporte da estante vai ficando bitolado a um conceito nada ampliado. O que era para ser um espaço de troca, de relacionamento urbano acaba sendo esquecido por todos nós, responsáveis pela interação proposta pela arte. Isso é desastroso!

Se faz necessário um investimento de atenção redobrado para que a arte não seja lançada aos quatro ventos. Para que a poesia perdure e encante a todos que passem pelo local.
Mas também se isso não tiver que acontecer, arte é transformação. É movimento e intensidade. Sem manuais de instruções de uso. Um simples olhar para a estante já está fazendo parte do processo de relação. Entretanto, se houver uma interação mais direta por nossa parte, que seja consciente.

A estante começa a chorar com um som inaudível...Você escuta?

segunda-feira, 8 de dezembro de 2008

relação de convivência

Alguns bilhetes como esse podem ser encontrados entre os livros que ocupam a estante. São pessoas que querem dizer algo para outras pessoas. Alguns desses pequenos pepéis tem apenas uma frase, uma mensagem de vida, outros falam de algo da nossa sociedade... mesmo tendo assuntos diferentes, o objetivo é comum a todos: trocar informações/sentimentos.

Um movimento social se inicia neste espaço que é construído e gerido pela comunidade. Façamos dele então um ambiente de convivência e de confiança, depositando desejos, pensamentos, idéias, essa é a verdadeira estante da vida!

sábado, 6 de dezembro de 2008

adendum...


Ontem, sexta-feira, dia 5 de dezembro, uma pessoa deixou uma sacola branca com uma estrela vermelha estampada. Tinham diversos livros, (Erico Veríssimo, coisas relacionadas a história) e um recado, enfim, uma bela iniciativa desta "vizinha"... seguem os devires...
o processo já é uma obra...
Gracias!

A Obra em Devires





Devir = O que há de vir. O Futuro. Movimento permanente das coisas que se desfazem, transformando-se em outras coisas.

O movimento por si identifica algo que se altera. Um corpo sai de seu posto estanque e amortecido para algo novo. Surge o inusitado e logo, da inquietação ao movimento. Segundo a física quântica, apenas vemos aquilo que conhecemos. Dizem que os indígenas não conseguiam ver as caravelas dos invasores europeus quando se aproximavam do litoral. Seus corpos não concebiam algo daquele tipo, interessante, não? Onde eu quero chegar?
Não conseguimos enxergar muitas das coisas que nos rodeiam, estão em nosso dia-dia e apenas por não conhece-las, não as vemos. Isso pode ser compreendido metaforicamente, ou não. O fato é que não percebemos muitas coisas.

Buenas, a intervenção urbana provoca de uma certa maneira uma pequena brecha de respiro. Se entende um corpo humano como algo integrado e consciente. Você talvez não perceba a primeira vista, mas tenha certeza, seu corpo viu antes de você, e te comunica. Eis a brecha que acontece nessa fração de milésimos.
No âmago desta instalação não existe um estímulo à leitura, essa talvez seja a primeira vista o ponto desta ação urbana. Não quer cumprir um papel educador. Antes de falar de direitos e poesia e questionar onde está a poesia em nossos direitos é um agente concreto estimulante do aparelho sensitivo do nosso corpo. A leitura, a curiosidade, o ato de escrever, tudo isso são estímulos ligados diretamente ao nosso “sentir”, a nossa sensibilidade para perceber nas nuances que a arte não é necessariamente uma obra, mas também um processo, um acontecimento, um fenômeno em movimento constante.

Pude perceber ao voltar à Estante Pública n°1 no final da tarde, que além de “pública” estar escrita sem o acento agudo, os livros não estavam no mesmo quorum. Não, ao contrário do que a gente esta acostumado a pensar, no vandalismo, no descaso aos livros. Pois bem, eles não só aumentaram de número como se pode encontrar pequenos recados entre as páginas. Isso é uma transformação, um fenômeno. A obra em si, não necessita ser a estante de livros, mas sim o que ela provoca nas pessoas, o que estimula a fazer, o que questiona. Este fenômeno vem a partir daquela brecha, daqueles milésimos de segundos. Aquele que nunca havia se deparado com aquela estante num vão urbano como muitos que existem pelas cidades, toma a iniciativa de deixar um recado para outro qualquer, esse relacionamento incógnito aproxima e faz, voltando a física quântica, que uma peça se mova, no indivíduo, na estante, no bairro, na cidade. E quando você move uma peça, você altera todo o sistema de coisas numa reação em cadeia, isso é física, isso é arte, portanto, aqueles que se sentirem à vontade, sigam e transformem a “obra” em seus próprios devires...
Está em processo e nós todos estamos dentro dele...

sexta-feira, 5 de dezembro de 2008

Levar ou Deixar?

Os livros são de quem?

Os livros são da rua.

Os livros são teus.

Os livros são nossos.

Não existe uma regra. Existe uma consciência. Uma percepção, um bom senso. Os livros são colocados na estante para que se discuta uma questão maior. A leitura deles acaba vindo conjunta com a iniciativa, pois são eles o produto tangível. Ler é bom. Ler alimenta a alma. Sem dúvida nenhuma, isso é indiscutível. No entanto, o questionamento que devemos ter com isso é se conseguimos perceber em nós mesmos uma ampliação de um civismo. Aqui mora a poética da instalação e é aqui que temos que começar a desenvolver um raciocínio. Se apropriar do urbano com criação de arte.

É bom ler uma poesia no meio da calçada? É interessante se informar de alguma lei que nos circunda enquanto esperamos o ônibus? Claro que sim! Isso é possibilitar e oportunizar as nossas conexões para um crescimento.

Seria lindo se as prateleiras se apertassem de livros novos. A estética muda, mas isso é arte urbana. Não tem problema. Este espaço de convivência é urbano, logo os livros são da rua não da casa de quem o pega e leva embora.

Os curiosos conhecem

A curiosidade é uma das principáis características de todos os grandes descobridores e criadores da história da humanidade. É preciso experimentar para conhecer, certo?

No interior dos livros o observador curioso pode encontrar um breve texto que o convida para a discução...

Você abriu algum livro?
Bom, aqui vai o texto... da próxima vez: seja curioso!

Estante Pública n°1
A curiosidade que te fez abrir este livro revela algumas particularidades que merecem um apanhado de palavras. Esta é uma Estante Pública. Isto aqui, provavelmente nunca tenha invadido a tua rotina na chegada ou partida do teu ônibus, ou na tua passagem por essa rua.Se observares bem os títulos dos livros, dispostos nas prateleiras, vais perceber que permeiam dois assuntos basicamente: Direito e Poesia.Nesse simbolismo existe uma pergunta... Onde está a poesia em nossos direitos? A nossa liberdade de ir e vir acaba se deparando com diversas situações de regras públicas em que acabamos por concordar. Somos educados a não questionar, enquanto a verdadeira participação se faz propondo ações.

Veja:
Civismo = refere-se a atitudes e comportamentos que no dia-a-dia manifestam os cidadãos na defesa de certos valores e práticas assumidas como fundamentais para a vida coletiva, visando preservar a sua harmonia e melhorar o bem-estar de todos.
Poesia = refere-se ao ato de criar. Do grego, poíesis, ação de fazer alguma coisa. Inspiração.

Unindo essas duas expressões podemos pensar em agir no que é público, incrementando novas possibilidades de convivência, criando com responsabilidade.
O respeito preserva. Leve esse cartão para casa, mas deixe o livro aqui.

A intervenção



Na madrugada de quinta-feira foi instalada a Estante Pública n°1. Neste dia muitas pessoas que passaram pela avenida Nilo Peçanha puderam ver essa inusitada situação.
Esta ação é uma proposta independente do coletivo Estúdio Nômade, que também se faz presente ativamente enquanto criador de arte. A intervenção urbana já é uma linguagem conhecida deles, meio por onde já vêm fazendo algumas experimentações.

A Estante Pública n°1, ao contrário do que algumas pessoas podem pensar, não tem seu foco principal no incentivo a leitura. A instalação urbana fala de algo mais. Os livros de Direito e Poesia juntos, instigam o observador a refletir sobre a união dessas duas idéias. A Estúdio Nômade está construindo uma plataforma de pesquisa, em que estuda a possibilidade de se criar espaços de convivência na cidade. Para isso é importante que as pessoas ocupem o espaço público e o tomem como sendo seu. A intervenção iniciada pela Estante questiona a falta de ousadia da população em geral em criar novas possibilidades no seu cotidiano. É muito mais do que oferecer livros para a comunidade, esta instalação fala de responsabilidade frente a criatividade e a vida.

"Para se agir com responsabilidade é importante ter uma consciência coletiva" (Nômade)

Segundo membros do coletivo Nômade, a arte deve ser um dispositivo de transformação pessoal/social, um instrumento de cura. Mas para poder usá-la com toda essa sua potência é importante ter um comprometimento ético-estético-político, que só acontece quando se tem atenção ao processo (pensamento circular) e não ao produto (pensamento linear).
A Estúdio Nômade é um grupo multidisciplinar que além de seus projetos independentes (como este), atua junto a marcas trabalhando de maneira diferenciada de comunicar e se relacionar com o público. Experiência, envolvimento, relação e conteúdo.
Sendo assim, a reação das pessoas frente a instalação é o principal material para o estudo, então a Estúdio Nômade pede a todos que mandem suas impressões e questionamentos para o blog, ou de alguma forma se façam escutar, para que se possa construir um diálogo dentro dessa temática.
Foto: Danilo Christidis