Você sabe... Buscamos sempre expansão: financeira, amorosa, corporal, cognitiva... Não importa. E X P A N S Ã O Ou, ao menos, assim deveríamos. Olha ao redor. Tudo está, agora mesmo, em constante movimento. Infinito mOvIMEntO. Sem notarmos, ele acontece e nossos passos sincronizam-se. Não faz o menor sentido existirmos numa vi(d)a de círculos, repetindo funções diárias. Redoma de imensos cotidianos. Se criamos prisões.
Criamos tambémA U T O N O M I A. Tu lê este texto e..., damos um passo. Nada vem sozinho. Foi apenas você e em breve será um outro, consecutivamente, movimento coletivo, anônimo, mas engendrado por um Ato Poético. Resignificar sentimentos faz parte do nosso processo de evolução.
Recriamos sentidos e encontramos
E M A N C I P A Ç Ã O. Estas “chaves”são o princípio de uma lufada de ar fresco. Pega uma chave, abra qualquer porta... Cria uma via para que coisas novas aconteçam ao redor. Precisamos todos reinventar nossas realidades. Tudo ficará, digamos, mais leve.
Pra ser sincero, não fico totalmente surpreso. Ver a Estante Pública depois de duas semanas totalmente vazia não é o mais preocupante, aliás, no seu segundo dia em atividade já não lhe restava nenhum título. O que antecede isso é o que realmente me preocupa. A falta de senso de “troca” e a aceitação ao ver a estante se tornar um “vão” como antes é triste. Qualquer pessoa que se detenha a observar a “instalação” por mais de 10 minutos percebe que ela adquiriu frente à maioria das pessoas a característica da invisibilidade. Alguns agem como se ela simplesmente não existisse, ou como se estivesse incomodando, invadindo o frágil estratagema de seus cotidianos. Certa vez em 2008, fizemos uma atividade, pela manhã na Redenção e a tarde no Parcão, a pedido de uma confecção de Porto Alegre. A ação consistia em um ator fantasiado de monge tibetano acorrentado a 150m de corrente, era uma manifestação pela libertação do Tibet. Anteriormente no Parque da Redenção percebemos uma grande aceitação e interatividade por parte das pessoas que freqüentavam as vias do Brique, foi realmente muito bonito. A tarde, levado ao Moinhos, mais tínhamos a sensação de estarmos invadindo um espaço privado, uma passarela de desfile. Será mesmo o Bairro Moinhos de Vento de Porto Alegre um bairro fechado as coisas novas? Será essa sua vocação? Com toda essa aparência de “Requinte Europeu” e sofisticação o que fica na prática é a sua caretice. Quem já foi pra Europa com um olhar minimamente atento aos processos sociais e artísticos percebeu como a arte urbana cresce, como ela é viva e está integrada ao seu meio. Quem faz o bairro são aqueles que o freqüentam. Recordo da estante pública n°1 que transbordava interação das pessoas, não apenas com trocas de livros, mas com recados que eram deixados de uns para outros, em suas páginas constavam dizeres, mensagens, pelo simples ato e prazer da troca. Não quero me convencer de que cada lugar está fadado a uma única característica. Acredito no movimento e na transformação. Acredito que ao nos apropriarmos destes espaços públicos vazios e transformando-os, resignificando-os, caminhamos em direção a algo mais bonito pra se viver nos nossos dias.
A estante pública não tem vigia, segurança privado ou câmeras de vigilância. Estamos nos tornando uma sociedade viciada em relações virtuais, onde a segurança depende de “controle” e não de educação e cultura, nos viciamos em trancas e no silencio da aceitação quando deveríamos estar mais “abertos”. Estamos regredindo ao desenvolver tanta tecnologia para a guerra e a vigia. Há alguns dias vi na TV uma espécie de “GPS” pessoal. Uma “coisa” que fica grudada no tornozelo das pessoas, um tipo de aparelho “anti seqüestro” ou localizador por satélite. É deprimente ver a televisão propagar este tipo de cultura do medo. Que pra se sentir seguro precisamos de armas, câmeras, grades, cercas elétricas ou geringonças via satélite. A Estante Pública é um termômetro e quem controla sua temperatura e saúde somos todos nós. Ela reflete o que tem dentro das pessoas, seja num âmbito coletivo ou individual. Atualmente... ela está sozinha, vazia e triste...
As sugestões moralistas podem ser muito bem recebidas quando se consegue ampliar uma teoria de conspiração barata. A temática Aparências Econômicas que recebe nas suas prateleiras livros de economia e de sociologia sugere um ganho de consciência coletiva.
O significado da palavra aparência nos leva a refletir sobre aquilo que não temos ou que não somos. É a fantasia que se veste para assumir um novo estado de espírito perante outras pessoas. Em outras palavras, é a máscara social que escolhemos para desenvolver a nossa forma teatral de viver. Este envolvimento que escolhemos por livre arbítrio assumir deve ser ampliado nas mais diversas relações existentes no mundo. Podemos estender este pensamento, por exemplo, para as relações entre países, governantes, famílias e amigos. É algo que coabita conosco neste mundo e que aqueles com mais habilidade se movimentam nesta realidade, mais inseridos estarão dentro de um sistema em que nós somos as peças reprodutivas do modelo.
As aparências econômicas remetem a uma linha de entendimento em que a busca idealizada é pelo poder. Poder este que não fica atrelado a um campo político. Esta analise precisa ser ampliada. Todos buscam o poder. E uma vez que estamos inseridos dentro de um modelo capitalista em que a moeda de troca para um bom viver é o papel dinheiro, invariavelmente estamos fadados a buscar o poder. Alguns conseguem abstrair um pouco mais esta relação de consumo tentando modos alternativos de viver. Mas mesmo aí onde se tenta buscar uma simplicidade na equação complexa capitalista, o poder está presente em algum nível. O modelo de sociedade de troca é seco e esgotável demais para regredirmos uma cultura consumista que parece ser evolutiva.
O poder que se refere aqui aparece nos mais diversos campos. As pessoas precisam poder aparentar algo para conseguir alguma coisa em troca. Esta troca, reduzida e simplificada ao seu mais baixo grau, significa um preenchimento de status pessoal. O conceito deturpado de status social é algo que o modelo econômico em que vivemos nos colocou. Nos valemos dele como uma verdade absoluta. Ele acaba sendo determinante para galgarmos uma crescente posição sócio-economica-financeira e até mesmo cultural.
Muitos não querem ver que vive em mundo de aparências. Fantasia, realidade transformada. Esta consciência pode nos fazer entender muitos absurdos que antagonizamos em nossa curta passagem pelo mundo. Claro que é frustrante saber que os macro problemas mundiais são ultra complexos de se resolverem, pois o nível de aparência e de poder se dá em outra escala. No entanto, o modelo é o mesmo... Só se repete em diferentes proporções e lugares com diferentes personagens. A nossa passagem requer poesia. Pede por poesia! Este é um poder transformador capaz de assumir a teatralidade da vida e brincar com os enganos das aparências.
É difícil conviver com a realidade do tempo. Ele existe para todos, se algo está vivendo significa que está envelhecendo, ou pelo menos está em processo de mudança. A Estante Pública n°1 teve o seu tempo. Conviveu com o bairro elegantemente, era companheira dos trabalhadores e estudantes que esperavam seu transporte. Foi soberana a chuva e resistiu aos ventos. Mas, como toda materia viva, sofreu as mudanças do tempo. Depois de 2 meses já apresentava sinais de desgaste.
Uma boa vida tem boas histórias, a Estante com certeza tem várias. Viu o que muitas pessoas não percebem, o dia-a-dia. Esteve presente no mais cotidiano dos atos, presenciou emoções totalmente diferentes, foi tocada por muitas intenções, as vezes abusada e outras vezes acariciada. Isso se notava, sua estrutura mostrava um processo.
Retirar a Estante não foi um acaso, foi um ato muito bem pensado e elaborado, como todo o luto deve ser. Sua despedida aconteceu intimamente com cada pessoa que se aproximava e não a encontrava, a sua lembrança é seu valor.
Essa primeira história acabou, fez seus laços, estabeleceu contato. Agora uma nova estante pode surgir, em outro lugar, com uma outra perspectiva. Haverá aceitação dos novos vizinhos? Como os transeuntes vão acolhe-la? Será possivel uma nova história? São perguntas que queremos fazer, vamos experimentar...
O tempo (des)constrói a estante instalada. Agora se observam diferentes revistas, manuais de instruções, guia telefônico, histórias em quadrinhos e poucos livros. As pedras que pesam sobre este material simbolizam um suspiro de cuidado trocado que as pessoas depositam sobre a arte. São pedras de diferentes tamanhos, com diferentes intenções. São revistas e escritos de diferentes formatos, diferentes conteúdos. Para muitos que passam pelo local, o conteúdo literário atual é quase que insiginificante. Notícias de revistas velhas, guia telefônico de muitos anos atrás...manual de instrução de um equipamento único. O fato é que poucos livros estão ali no local onde deveriam estar.
No entanto, a troca perdura. Ainda existe cuidado. O inusitado invisível derrama uma poção mágica e se transforma em uma prateleira carismática.
Seguimos juntos.
Uma nova sessão se aproxima para ser instalada. Estante Pública nº 2...Quem arrisca a metáfora?
Não sei se foi por acaso, mas nestes últimos dias de dezembro em que comemoramos o Natal, se pode perceber uma mudança expressiva na relação das pessoas com a Estante Pública n°1. Desde a sua instalação, nunca tinha visto tantos livros ocupando as prateleiras. Hoje são 150 volumes de diversos estilos, vários ainda originais da primeira colocação, mas muitos outros de doações, empréstimos... enfim, de trocas.
Como não acredito no acaso, acho muito interessante pensar na força que essa época natalina trás. Não tenho a pretensão de entender, ou julgar os motivos, apenas quero aqui constatar que acho muito intenso o que acontece, e acredito que podemos aproveitar essas intensidades.
Feliz Natal a todos e um bom início de novo ano, certeza que outras intensidades estão por vir... por enquanto viva a abundância e a solidariedade!
Para quem já conhece e para quem está conhecendo agora... este é um projeto de participação coletiva e ocupação urbana. Os materiais colocados na Estante são de uso público, porém a responsabilidade sobre eles é de cada um. Não há câmeras, não há guardas, não há grades... este ambiente alimenta uma relação aberta com seus visitantes. Para participar basta se deixar levar pela curiosidade e, com atitude colaborativa, permitir que algo do seu íntimo fique. O projeto Estante Pública é incentivado por Nômade ind.
coletivo independente da Estúdio Nômade. Desenvolve propostas autorais de arte como dispositivo de inovação social. Laboratório de experiências poéticas colaborativas. Multilinguagem -Multipercepção.